Nas últimas décadas, a Casas Bahia foi quase o lugar preferido das famílias brasileiras para comprar eletrodomésticos e móveis. Essa rede de varejo, com mais de 70 anos de operação, entrou no dia a dia de inúmeros brasileiros com mais de mil lojas em todo o país.

Mas o balanço mais recente mostrou um prejuízo líquido de 10,1 bilhões de reais no segundo trimestre de 2026, cerca de US$ 1,94 bilhão, um aumento de cerca de 18 vezes em relação ao prejuízo de 555 milhões no mesmo período do ano anterior. O mais lamentável é que já é o oitavo trimestre consecutivo de prejuízo.

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Em maio de 2026, o grupo ainda tinha 1.039 lojas. Mas a empresa já anunciou o fechamento de 298 lojas e demissões em massa, o que equivale a uma redução de quase 30% da rede física de uma só vez.

Segundo a imprensa local, cerca de 3.000 pessoas foram demitidas, incluindo funcionários desde recém-contratados até veteranos com mais de vinte anos de trabalho. A empresa também pediu recuperação judicial ao tribunal de São Paulo, envolvendo dívidas de cerca de 17,3 bilhões de reais. Em 2024, ela havia acabado de concluir uma reestruturação de dívidas de 4,1 bilhões de reais, e apenas dois anos depois entrou em crise novamente. As taxas de juros persistentemente altas no Brasil são, de fato, uma razão importante que a derrubou, mas se o problema for atribuído apenas aos juros, essa história não está completa.

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No mesmo mercado, diante dos mesmos consumidores, o cenário do outro lado é completamente diferente.

Até fevereiro de 2026, a Shopee já tinha 16 centros de distribuição no Brasil, incluindo 3 centros de fulfillment e 13 centros de cross-docking, além de mais de 200 hubs logísticos, mais de 3.000 pontos de coleta parceiros e cerca de 45 mil motoristas parceiros. E isso é apenas o começo — em 2026, a Shopee anunciou que abrirá mais 10 novos centros de distribuição no Brasil, elevando o total de centros logísticos de 16 para 26, um aumento de mais de 60%.

No passado, a Casas Bahia se aproximava dos consumidores com lojas; agora, a Shopee faz isso com armazéns, pontos de coleta comunitários e motoristas de entrega.

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A Temu segue outro caminho. Após entrar no Brasil, primeiro usou publicidade, subsídios e produtos de baixo preço para conquistar usuários rapidamente — em julho de 2025, a plataforma chegou a registrar cerca de 410 milhões de visitas no Brasil, tornando-se uma das plataformas de e-commerce mais acessadas do país na época.

Depois de conquistar o tráfego, passou a disputar comerciantes, estoque e recursos de entrega locais no Brasil, abrindo totalmente para vendedores locais e promovendo o modelo de transação "local para local". Produtos armazenados no Brasil podem ser entregues em até dois dias úteis.

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A SHEIN também está fazendo uma transformação semelhante. Construiu uma cadeia de suprimentos local no Brasil, promoveu a captação de vendedores em modelo de plataforma e expandiu do fast fashion para todas as categorias. No início de 2025, a SHEIN já tinha cerca de 30 mil vendedores locais no Brasil, e os produtos locais chegaram a representar cerca de 60% das vendas no país.

A estratégia dessas plataformas é clara: usar a eficiência e a vantagem de preço da cadeia de suprimentos chinesa, combinadas com a operação de ativos leves do modelo de plataforma, contornar os custos de lojas e pessoal do varejo tradicional e conquistar consumidores diretamente com preços baixos e grande variedade de produtos.

Até as políticas estão ajudando as plataformas chinesas. Em maio de 2026, o presidente brasileiro Lula assinou um decreto eliminando o imposto federal de importação de 20% sobre encomendas internacionais de até US$ 50.

Os preços já tinham vantagem, e agora os impostos caíram, ampliando ainda mais a relação custo-benefício das plataformas chinesas. Tomando como exemplo um produto de US$ 45: antes da nova política, o comprador pagava cerca de US$ 20 de imposto, com preço final de US$ 65; agora o imposto caiu para cerca de US$ 9, e o preço final é de apenas US$ 54.

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Para os vendedores chineses, esta é uma janela de oportunidade. A participação de mercado de eletrodomésticos, móveis e itens de uso diário deixada pelo gigante local após sua queda é exatamente o ponto forte da cadeia de suprimentos chinesa. Mas a janela não ficará aberta para sempre — a concorrência entre as plataformas será cada vez mais acirrada, e a complexidade tributária e de conformidade no Brasil também é alta. Quem se adiantar tem vantagem de pioneiro, mas também é preciso controlar os riscos de estoque e de pagamento — não pise no buraco do antigo gigante em um novo mercado.