Quão acirrada é a concorrência no setor de fones de ouvido? Basta olhar para os dados do mercado global.
De acordo com dados da empresa de pesquisa de mercado Canalys, as remessas globais de fones de ouvido verdadeiramente sem fio (TWS) em 2024 atingiram 330 milhões de unidades, um aumento de 13% em relação ao ano anterior.
Fonte: Canalys
Neste mercado em rápido crescimento, os três gigantes Apple, Samsung e Xiaomi detêm firmemente o domínio do mercado, tornando extremamente difícil para novas marcas conquistarem uma fatia.
Mas, surpreendentemente, uma nova marca da China conseguiu romper com sucesso. Na América Latina, sua participação de mercado entrou no top 5; no Brasil, ela compete diretamente com Samsung e Apple, mantendo-se firmemente no top 3. Essa marca é a QCY.
Então, como essa marca chinesa, antes desconhecida, conseguiu dar a volta por cima nos mercados internacionais?
Fonte: Google
A reviravolta da fábrica OEM
Sabe-se que a QCY pertence à Dongguan Hele Electronics Co., Ltd., que inicialmente era apenas uma fábrica que produzia fones de ouvido para marcas estrangeiras, acumulando gradualmente experiência de produção e capacidade técnica através de suas linhas de montagem. Mas ser OEM era, no fundo, "trabalhar para os outros". Vendo os lucros diminuírem cada vez mais, em 2011 eles tomaram uma grande atitude: criaram a marca própria QCY, saindo oficialmente dos bastidores para o centro do palco.
Fonte: QCY
A primeira batalha da transformação foi um sucesso. Em 2013, a QCY entrou no Tmall e conquistou o primeiro lugar na categoria de fones de ouvido Bluetooth em 50 dias, vendendo mais de 100 mil unidades em três meses, e manteve-se como campeã de vendas no Double 11 por 4 anos consecutivos. Foi esse boom do comércio eletrônico que impulsionou a rápida expansão da QCY. Eles construíram uma fábrica própria de 36.000 metros quadrados, com 140 linhas de produção alinhadas, elevando a capacidade de produção mensal para 3 milhões de unidades, controlando tudo, desde a compra de peças até a distribuição logística.
Foto interna da fábrica da QCY Fonte: Baidu Baike
Mas o mercado doméstico estava extremamente saturado, então a QCY começou a voltar seus olhos para o mercado internacional mais amplo.
Diferente da maioria das marcas, a QCY não foi para a Europa ou EUA enfrentar os gigantes de frente. Em vez disso, mirou nos "mercados promissores" como América Latina, Sudeste Asiático e Oriente Médio. No início, testaram as águas através de distribuidores. Quando o comércio eletrônico transfronteiriço amadureceu, entraram decisivamente no Shopee, Lazada e Amazon Brasil, e até estabeleceram 11 agências nacionais na Coreia do Sul e no Japão.
Em 2020, suas remessas de fones TWS entraram no top 4 global. Até março de 2025, as remessas anuais de produtos da QCY ultrapassam 10 milhões de unidades.
No entanto, a estratégia de mercado é apenas o primeiro passo para a internacionalização. O que realmente determina o sucesso ou fracasso é o próximo desafio: a adaptação local.
Fonte: Lazada
O código da localização nos detalhes
Muitas marcas que se internacionalizam caem na armadilha de "uma fórmula serve para todos", mas a QCY ofereceu uma solução diferente: desenvolver produtos específicos para cada mercado.
Tomando o mercado brasileiro como exemplo, os consumidores locais têm exigências claras para fones de ouvido: qualidade de som boa e preço baixo.
Então a QCY usou o modelo de alto custo-benefício T13 como porta de entrada, mantendo funções principais como quatro microfones (dois em cada fone) e bateria de 40 horas, mas controlando o preço na faixa dos cem reais através da otimização da cadeia de suprimentos. Essa estratégia de preços acertou em cheio a dor do mercado. Até 2023, as vendas do T13 em todos os canais no Brasil ultrapassaram 3 milhões de unidades, e ele ainda está no top 10 do ranking de mais vendidos (BS) da Amazon Brasil.
Fonte: Amazon Brasil
Ao se voltar para o Sudeste Asiático, a QCY descobriu que os jovens locais passam mais de 3 horas por dia em jogos mobile. Imediatamente, adicionaram o modo game ao fone T5. Essa modificação aparentemente pequena, combinada com a estratégia de preço baixo (na faixa dos cem reais), fez o produto se tornar rapidamente um item essencial para jogadores mobile,最终 criando um recorde de vendas de 7 milhões de unidades globalmente.
QCY T5 Fonte: Google
Até mesmo detalhes como a escolha de cores foram ajustados com precisão pela QCY. Os consumidores brasileiros preferem cores básicas como preto, branco e cinza, então eles simplificaram a linguagem de design. Já os consumidores do Sudeste Asiático são fãs de cores da moda, e os fones em tons pastel se tornaram os modelos principais.
Essa estratégia operacional de adaptação profunda最终impulsionou a QCY para o Top 5 em remessas na América Latina, e sua participação de mercado no Brasil entrou no top 3 do setor.
Fonte: Google
Alavancando o tráfego internacional com mídias sociais
Fazer apenas "localização" não é suficiente. A estratégia da QCY nas mídias sociais internacionais também é muito bem estruturada.
Eles implementaram uma estratégia de "plataformas diferentes com funções diferentes", sem fazer distribuição uniforme de conteúdo, mas desenhando táticas específicas baseadas nas características de cada plataforma.
Começando pelo TikTok, a QCY abriu três contas para diferentes mercados: a conta global @qcyglobal (128,5 mil seguidores, 382,5 mil curtidas), a conta para o Brasil @qcy.brasil (59,6 mil seguidores, 180,4 mil curtidas) e a conta para a Indonésia @qcy.indonesia (6.121 seguidores, 10,6 mil curtidas).
Fonte: TikTok
Os estilos de conteúdo das três contas são claramente diferentes. A conta global foca em fotos reais dos produtos, modelos usando e vídeos de unboxing, mostrando as funções de forma直观. A conta brasileira foca em comparações de desempenho e avaliações de usuários, como testar o cancelamento de ruído no metrô. A conta indonésia usa esquetes de humor para inserir os produtos, com capas de vídeo bem animadas e divertidas.
Fonte: TikTok
A QCY também é muito boa em colaborações com influenciadores. Eles não buscam cegamente o tráfego dos grandes influenciadores, mas miram com precisão em influenciadores de médio porte que se alinham com a identidade da marca.
Por exemplo, o vídeo do influenciador de moda indonésio @renosanntos (99,8 mil seguidores) sobre fones de ouvido do tipo gancho, integrando naturalmente o produto ao visual do dia a dia, atingiu 1,4 milhão de visualizações e 124,7 mil curtidas. O vídeo de unboxing do fone de ouvido over-ear da influenciadora brasileira @paula.raysa (42,3 mil seguidores), conquistou o público com uma experiência real e alcançou 408,5 mil visualizações.
Fonte: TikTok
A vantagem desse modelo de colaboração é clara: influenciadores locais entendem melhor as necessidades reais do público-alvo, e o conteúdo criado tem mais facilidade para gerar identificação. Além disso, comparado a gastar muito dinheiro com grandes influenciadores, esse tipo de segmentação precisa tem um custo-benefício muito maior.
Fonte: TikTok
No YouTube, a tática da QCY também é inteligente. A conta oficial deles, @Qcybrand, não tem muitos seguidores, apenas 8.650, mas eles encontraram uma forma eficaz de promoção: focar em colaborações com criadores de conteúdo especializados em nichos verticais.
Fonte: YouTube
Por exemplo, o canal de reviews especializado em áudio @Picky Audio (91,3 mil seguidores) fez um vídeo analisando profundamente a relação custo-benefício dos fones QCY, desde comparações de especificações até testes de audição reais. Após a publicação, o vídeo alcançou 79 mil visualizações, sendo bem recebido por usuários na Europa e América.
Fonte: YouTube
Já no Facebook e no Instagram, a QCY estabeleceu uma matriz de 3 a 5 contas.
Facebook (esquerda), Instagram (direita)
O conteúdo publicado em ambas as plataformas foca principalmente em imagens de alta definição dos produtos e gráficos de comparação de funções, como mostrar em uma imagem a bateria do fone superando a concorrência, ou demonstrar a resistência à água em um vídeo curto.
Ao mesmo tempo, publicam periodicamente descontos por tempo limitado, avaliações positivas de usuários e histórias da marca para manter a conta ativa.
Embora não haja enredos complexos, a alta frequência de exposição dos produtos também atrai muitos usuários interessados em saber o preço.
Facebook (esquerda), Instagram (direita)
Olhando para os dados gerais, a estratégia de mídia social da QCY é muito pragmática. Eles não buscam um número de seguidores inflado, mas sim concentram os recursos limitados onde podem gerar mais conversão. Isso é uma referência valiosa para pequenas e médias marcas com orçamento limitado.
Fonte: Google
O próximo campo de batalha para as marcas chinesas
A prática da QCY confirma uma tendência: os mercados emergentes internacionais estão se tornando um ponto de inflexão crucial para a manufatura chinesa.
Para as empresas que desejam se internacionalizar, o primeiro passo é abandonar a obsessão por "algo grande e abrangente". Em vez de enfrentar os gigantes de frente na Europa e América, é melhor, como a QCY, encontrar nichos de mercado com alto crescimento e baixa penetração.
O cenário do consumo global está longe de estar definido, e esta é a oportunidade para as marcas chinesas.
Em vez de ficar esperando, é melhor se envolver, deixar de lado o "empirismo" e se adaptar ao ecossistema internacional com uma postura mais aberta.



